Nota técnica 03
Conversas investigativas
Fundamentação para preparar, conduzir, registrar e interpretar conversas investigativas.
TL;DR
Para que servem as conversas investigativas?
Para compreender experiências, perspectivas e relações que ajudam a responder às dúvidas do projeto.
Como preparar e conduzir uma conversa?
Definir o que precisa ser compreendido, escolher interlocutores e preparar temas e perguntas. Durante o encontro, acompanhar o relato e aprofundar episódios e questões que surgem.
Como transformar a conversa em aprendizado para o projeto?
Preservar o contexto das falas, distinguir relato, interpretação e hipótese, comparar o material e atualizar o conhecimento que orienta as próximas decisões.
Aprender com pessoas
Uma conversa investigativa é um encontro preparado para compreender experiências, perspectivas e relações. A preparação articula o desafio do projeto, os atores envolvidos e as dúvidas que precisam ser investigadas.
Na abordagem semiestruturada, os temas orientam o encontro e as perguntas acompanham o que emerge da escuta. Compreender a intenção de investigação permite adaptar o roteiro e explorar questões inesperadas. O roteiro funciona como uma trilha e não um trilho.
O rigor envolve distinguir relatos, observações, interpretações e hipóteses. A dimensão humana está na curiosidade, na atenção e no respeito à experiência da pessoa. Essa habilidade se desenvolve pela prática e pela reflexão.
A preparação de uma aula em um programa de empreendedorismo exemplifica a construção do roteiro. Recortes anonimizados de uma pesquisa sobre um serviço de saúde ilustram a condução e a interpretação.
Preparar a conversa
A preparação começa pela escolha de uma dúvida que possa ser investigada por meio de conversas. A intenção explicita o que precisa ser compreendido, e a seleção dos interlocutores identifica quem pode contribuir com experiências e perspectivas relacionadas a essa dúvida. O conhecimento disponível ajuda a selecionar os temas. O roteiro organiza cada tema com sua intenção, uma pergunta de abertura e possibilidades de aprofundamento. (Kallio et al., 2016)
No caso didático, uma das dúvidas é: “Em quais situações das iniciativas os alunos pretendem utilizar o aprendizado desta aula?” A intenção é compreender os contextos de uso para escolher exemplos e materiais. Os alunos são os interlocutores porque podem relatar experiências de seus projetos e expectativas para a formação.
As perguntas a seguir exemplificam a preparação dessa conversa.
| Tema | O que se pretende compreender | Pergunta |
|---|---|---|
| Situação da iniciativa | O estágio atual do projeto. | “Como está a iniciativa de que você participa hoje?” |
| Experiência de investigação | Uma situação em que foi necessário compreender outra pessoa. | “Em algum momento o grupo precisou compreender a experiência de alguém para avançar?” Se houver um episódio: “Conte como foi essa situação.” |
| Expectativa para a formação | Em que contexto o conteúdo pode ser utilizado. | Após apresentar o assunto da aula: “O que você gostaria de aprender nesta aula?” Se houver uma aplicação: “Em que situação da iniciativa esse aprendizado poderia ser usado?” |
Uma dúvida de investigação pode originar várias perguntas. O percurso começa pelo contexto, busca experiências concretas e explora expectativas. Cada pergunta cumpre uma intenção e usa linguagem compreensível. “Como esta aula vai melhorar suas conversas?” pressupõe uma melhora. “O que você gostaria de aprender nesta aula?” permite que a pessoa formule sua expectativa. (Cairns-Lee, Lawley e Tosey, 2022)
O roteiro inclui a apresentação do propósito, os temas prioritários e o fechamento. O convite informa a duração, o uso das informações e a forma de registro. A pessoa escolhe participar e autoriza o registro combinado. Uma simulação ajuda a revisar a compreensão das perguntas, as transições e a duração. O preparo resulta em um roteiro que permite explicar a intenção de cada tema e reconhecer diferentes formas de explorá-lo. (Kallio et al., 2016; Ranney et al., 2015)
Escutar e aprofundar
Escutar é acompanhar como a pessoa organiza sua experiência. Uma expressão pouco compreendida, um episódio mencionado ou uma relação apresentada no relato oferece pistas para a pergunta seguinte. O aprofundamento transforma afirmações gerais em descrições de situações, ações e significados. (Hermanowicz, 2002)
| Pista | Aprofundamento |
|---|---|
| Expressão pouco compreendida | “O que isso significa nessa situação?” |
| Experiência mencionada de forma geral | “Pode contar uma ocasião em que isso aconteceu?” |
| Sequência de acontecimentos | “O que aconteceu depois?” |
| Diferença entre situações | “O que mudou de uma situação para a outra?” |
Uma pausa oferece tempo para a pessoa elaborar o pensamento. Retomar suas palavras ajuda a acompanhar seu raciocínio e a reconhecer questões que a preparação ainda não havia identificado.
Os recortes a seguir pertencem a uma conversa real sobre um serviço de saúde. Os interlocutores foram anonimizados. Palavras entre colchetes substituem identificadores; reticências entre colchetes indicam cortes.
Pesquisador: “E aí, esses seus profissionais, eles fazem esse contato como com o paciente?”
Participante: “Via aplicativo. No nosso aplicativo a gente tem uma parte do chat, e aí é dentro do chat do aplicativo que esse contato é feito.”
A pergunta passa da existência do acompanhamento para seu modo de realização. A resposta identifica o canal e oferece uma nova dimensão para investigar: como os profissionais vivenciam esse contato.
Pesquisador: “A gente é, assim, entrando um pouquinho, só mais um detalhe, como que os seus profissionais avaliam esse tipo de ferramenta, esse tipo de contato, de diálogo com paciente através de outros [...] recursos, em vez de um diálogo presencial? Como que seja?”
Participante: “Eles acham necessário [...] A gente já teve, no início, [pesquisador], muita barreira. Então, quando a gente implementou o aplicativo, os profissionais mais antigos, principalmente, eles tinham uma barreira com o uso da tecnologia do app, né? Ah, vai ter que agora mais uma coisa para mexer, mais uma coisa para colocar treinamento, mais uma coisa para monitorar.”
A resposta acrescenta a percepção inicial de trabalho adicional. Na continuação do relato, a participante afirma que, posteriormente, a equipe passou a reconhecer a importância da ferramenta. Essa mudança permite perguntar por episódios dos dois momentos.
Uma reformulação didática da pergunta seria: “Como os profissionais avaliam o contato pelo aplicativo?” A transcrição preserva a formulação usada na conversa.
O roteiro orienta a atenção, e cada resposta ajuda a escolher o próximo passo. Um tema merece aprofundamento quando contribui para compreender o desafio, revela uma relação entre atores ou modifica uma suposição. No fechamento, uma síntese permite conferir o entendimento e uma pergunta aberta acolhe complementos. (Ranney et al., 2015)
Registrar, interpretar e usar o aprendizado
O registro preserva a fonte, a data, o contexto e os trechos usados na análise. Falas literais aparecem entre aspas; resumos, interpretações e hipóteses recebem identificação própria. Uma nota após o encontro registra temas relevantes e aspectos da condução que podem ter influenciado as respostas. Esse conjunto permite acompanhar como o aprendizado foi construído. (Ranney et al., 2015)
Relato é o que uma pessoa conta sobre sua experiência ou sobre a experiência de outros. Observação é o que foi acompanhado diretamente em uma situação. Interpretação é a compreensão produzida a partir do material. Uma hipótese explicativa propõe uma relação causal provisória que pode ser revista com novas informações.
A análise seleciona trechos relacionados às dúvidas de investigação, identifica temas e compara situações e perspectivas. Cada interpretação mantém a ligação com o material que a sustenta. (Gale et al., 2013)
A tabela apresenta uma interpretação didática do recorte anterior.
| Elemento | Formulação a partir do recorte |
|---|---|
| Relato | A participante descreve barreiras no início da implantação e relata uma valorização posterior do aplicativo pela equipe. |
| Interpretação | Na perspectiva da participante, a avaliação da ferramenta mudou ao longo do uso. |
| Hipótese | A percepção de tarefas adicionais pode ter contribuído para as barreiras iniciais porque o aplicativo foi entendido como trabalho acrescentado à rotina. |
| Dúvida | O que mudou na experiência dos profissionais entre a implantação e o uso posterior? |
| Próximo passo | Conversar com profissionais sobre episódios dos dois períodos e observar como o aplicativo participa de uma situação atual de trabalho. |
Na CSD, uma certeza situada pode ser formulada assim: “Na conversa registrada sobre a implantação do aplicativo, a participante relatou barreiras iniciais ao uso pela equipe.” A hipótese sobre o papel das tarefas adicionais entra como suposição, e a questão sobre a mudança na experiência entra como dúvida. Cada formulação mantém sua fonte e seu contexto. (Kaley, 2023)
A síntese reúne os temas, suas evidências e as implicações para o projeto. Comparar relatos e situações permite identificar convergências, diferenças e questões a aprofundar. O resultado orienta uma decisão ou o próximo passo da investigação. Nesse caso, o material indica a necessidade de compreender como a ferramenta participa das atividades dos profissionais em diferentes momentos de uso.
Referências
GALE, Nicola K. et al. Using the framework method for the analysis of qualitative data in multi-disciplinary health research. BMC Medical Research Methodology, v. 13, art. 117, 2013. Artigo.
HERMANOWICZ, Joseph C. The great interview: 25 strategies for studying people in bed. Qualitative Sociology, v. 25, n. 4, p. 479–499, 2002. Artigo.
KALLIO, Hanna et al. Systematic methodological review: developing a framework for a qualitative semi-structured interview guide. Journal of Advanced Nursing, v. 72, n. 12, p. 2954–2965, 2016. Artigo.
RANNEY, Megan L. et al. Interview-Based Qualitative Research in Emergency Care Part II: Data Collection, Analysis and Results Reporting. Academic Emergency Medicine, v. 22, n. 9, p. 1103–1112, 2015. Artigo.
CAIRNS-LEE, H.; LAWLEY, J.; TOSEY, P. Enhancing researcher reflexivity about the influence of leading questions in interviews. The Journal of Applied Behavioral Science, 2022. Artigo.
KALEY, Anna. CSD Matrix: Framework and Template for Shared Understanding. Nielsen Norman Group, 2023.