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Augusto AlvesNotas
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Nota técnica 02

A investigação pela abordagem do design

Fundamentação para alinhar intenções, organizar o conhecimento e escolher como investigar.

Augusto Alves9 minutos de leitura

TL;DR

Como a investigação contribui para um projeto?
Produz o conhecimento necessário para compreender a situação, rever hipóteses e orientar decisões sobre o desenvolvimento da iniciativa.

Por onde começa?
Começa pelo alinhamento da transformação pretendida, pelo reconhecimento dos atores e pela organização do que já se sabe, do que se supõe e do que precisa ser compreendido.

Como esse conhecimento é produzido e utilizado?
Cada dúvida é relacionada à informação necessária, às fontes e aos métodos adequados. Os registros são analisados e sintetizados em aprendizados, oportunidades e próximos passos.

A investigação conecta a intenção do projeto às decisões que precisam ser tomadas. Seu planejamento explicita o conhecimento necessário, seleciona fontes e métodos e define como os resultados serão registrados e analisados. Ao longo do projeto, novas informações permitem rever o entendimento da situação e orientar o percurso.

Alinhar a transformação e o conhecimento necessário

O objetivo do serviço ou negócio expressa a transformação pretendida. O objetivo da investigação explicita o conhecimento necessário para apoiar essa transformação. (Camillo, 2025) A pergunta desafio reúne público, contexto e direção e cria uma referência comum para o trabalho.

A construção “Como seria possível...” favorece a produção de alternativas. Formular versões com diferentes focos e amplitudes ajuda a reconhecer suposições presentes no enquadramento e a escolher uma direção compreensível, situada e aberta a diferentes caminhos. (IDEO.org — Frame Your Design Challenge; IDEO.org — How Might We)

No caso didático da preparação de uma aula, a pergunta de trabalho é:

Como seria possível apoiar participantes de um programa de empreendedorismo a desenvolver, por meio de conversas investigativas, sua capacidade de compreender as pessoas e as relações envolvidas em suas iniciativas?

Uma pergunta desafio pode ser examinada pela transformação que expressa, pelo público e contexto que delimita, por sua amplitude, pela abertura de caminhos e pela linguagem empregada.

Formulação inicial

Como seria possível potencializar os resultados de projetos por meio de uma capacitação padronizada?

Reformulação

Como seria possível ajudar equipes empreendedoras a identificar o que ainda não sabem sobre as pessoas envolvidas em suas iniciativas e formular o que precisam investigar?

Critério Formulação inicial Reformulação
Transformação “Potencializar resultados” mantém indefinido o efeito pretendido. Explicita a capacidade de identificar lacunas de conhecimento e formular o que investigar.
Público e contexto O público e a situação permanecem indeterminados. Situa equipes no desenvolvimento de iniciativas empreendedoras.
Amplitude O enunciado abrange qualquer resultado de projeto. Delimita o desafio à compreensão das pessoas envolvidas.
Abertura A capacitação padronizada aparece como resposta previamente escolhida. A formulação admite diferentes formas de aprendizagem e investigação.
Linguagem Os termos abstratos dificultam reconhecer a mudança esperada. Pessoas, lacunas de conhecimento e ações observáveis tornam a direção compreensível.

Essa mudança aparece na passagem de “não conhecemos nossos possíveis clientes” para “precisamos compreender como essas pessoas decidem entre as alternativas que usam hoje”. A primeira frase nomeia uma ausência ampla. A segunda delimita o conhecimento necessário para orientar uma decisão.

O desafio expressa a transformação desejada. A dúvida de investigação explicita o que precisa ser compreendido. As perguntas dirigidas às fontes produzem o material necessário para responder à dúvida.

Reconhecer atores e relações de valor

Uma iniciativa se realiza por relações entre pessoas, recursos e atividades ao longo do tempo. Produtos, plataformas e formações participam dessas relações e adquirem sentido pelo que permitem às pessoas realizar. (Polaine, Løvlie e Reason, 2013; Penin, 2018)

O valor é cocriado nas relações em que os atores integram os recursos da iniciativa às próprias experiências, capacidades e objetivos. Reconhecê-los permite compreender quem participa, influencia ou é afetado e como suas contribuições, dependências e expectativas condicionam a realização da proposta. (Vargo e Lusch — Foundations)

Uma matriz ajuda a representar essas relações. Cada linha assume a perspectiva de um ator. A diagonal registra sua hipótese de valor a partir da iniciativa. Os demais cruzamentos descrevem uma interação, o mecanismo pelo qual ela pode produzir um efeito e o valor desse efeito para o ator da linha. Uma hipótese de valor constitui uma explicação causal provisória: relaciona um efeito esperado ao mecanismo que pode produzi-lo.

No caso didático, o mapa reúne professor, alunos e organização de um programa de empreendedorismo.

Perspectiva ↓ / Relação com → Professor Alunos Organização
Professor Hipótese de valor: participar como professor amplia seu reconhecimento profissional porque torna sua experiência visível e associa sua atuação ao programa. As dúvidas e interpretações dos alunos podem revelar pressupostos implícitos em sua prática, permitindo aprimorar exemplos e explicações. A relação com a organização amplia seu contato com outros contextos de formação e pode criar oportunidades de colaboração relacionadas à sua experiência.
Alunos Acompanhar como o professor transforma lacunas de conhecimento em perguntas torna visíveis decisões que um roteiro pronto não explicita, oferecendo critérios para preparar as próprias conversas. Hipótese de valor: aplicar o percurso ao projeto amplia a autonomia da equipe porque organiza decisões de investigação que antes estavam dispersas. A curadoria do programa reúne referências e condições de aprendizagem, reduzindo o esforço necessário para localizar um ponto de partida.
Organização Mobilizar o conhecimento de um profissional atuante aproxima prática e formação, fortalecendo a capacidade do programa de oferecer conhecimento contextualizado. A aplicação do conteúdo pelas equipes pode produzir exemplos de contribuição da formação, oferecendo informações para avaliar a atividade e orientar ofertas futuras. Hipótese de valor: apoiar o desenvolvimento das iniciativas fortalece a relevância do programa porque torna visível sua contribuição para o percurso dos participantes.

As hipóteses e as questões levantadas no mapa orientam a organização do conhecimento disponível.

Organizar o conhecimento e definir como investigar

A matriz CSD reúne certezas, suposições e dúvidas relacionadas ao desafio e aos atores. As certezas registram informações conhecidas, com origem e contexto. As suposições apresentam afirmações plausíveis e contestáveis, incluindo hipóteses de causa e efeito. As dúvidas formulam perguntas abertas, específicas e respondíveis. Cada célula contém uma ideia. (Kaley, 2023; Agee, 2009)

O exemplo utiliza premissas fictícias sobre a preparação de uma aula em um programa de empreendedorismo. As colunas reúnem registros independentes.

Certezas do cenário Suposições Dúvidas
A formação reúne alunos vinculados a iniciativas em diferentes estágios. Acompanhar as decisões usadas na preparação da aula ajuda os alunos a adaptar o processo às próprias iniciativas, porque explicita por que cada ferramenta e pergunta foi escolhida. Em quais situações das iniciativas os alunos pretendem utilizar o aprendizado desta aula?
O encontro combina leitura, discussão, prática orientada e apresentação dos grupos. Conhecer como os alunos aplicaram o conteúdo permite ao professor aprimorar suas explicações, porque revela como elas foram compreendidas em situações diferentes. Que retorno sobre sua participação o professor considera relevante obter desta formação?
O material de apoio apresenta fundamentos e exercícios de conversas investigativas. A aplicação do aprendizado em atividades posteriores permite à organização reconhecer a contribuição da aula, porque torna visível seu uso no desenvolvimento das iniciativas. O que a organização considera uma contribuição desta aula para o percurso dos alunos?
O texto e os exercícios serão disponibilizados antes do encontro.

A leitura da matriz mostra em que o projeto se apoia e quais lacunas afetam suas decisões. Informações novas atualizam as formulações e podem deslocar itens entre as colunas.

Para cada dúvida, define-se qual informação pode respondê-la, onde encontrá-la e como obtê-la. A pergunta e a decisão orientam a escolha do método; o acesso às fontes e os recursos disponíveis determinam sua execução. (Creswell, 2009; Patton, 2002)

A pesquisa secundária utiliza estudos e dados existentes. Pode reunir literatura, estatísticas, relatórios, bases e soluções já desenvolvidas. A busca parte dos termos da dúvida, e a seleção considera autoria, data, contexto e modo de produção. Documentos também podem constituir dados do próprio objeto, como formulários, procedimentos e registros. Nesse caso, sua análise considera conteúdo, finalidade e contexto de produção. (Bowen, 2009)

A pesquisa primária produz dados para a investigação em curso. Conversas investigativas ajudam a compreender experiências, expectativas, critérios de decisão e relações. A observação acompanha práticas em contexto. Questionários examinam a distribuição de respostas. Testes estudam a interação com uma proposta.

Conhecimento necessário Caminho possível
Conhecimento publicado ou características de uma população Revisão de literatura, estatísticas e bases existentes
Experiências, expectativas, critérios de decisão e relações Conversas investigativas
Práticas realizadas em uma situação concreta Observação e conversa com os envolvidos
Frequência de uma ocorrência ou efeito de uma mudança Análise de registros, levantamento, teste ou comparação com medidas adequadas à pergunta

A priorização relaciona a contribuição da dúvida para a próxima decisão, a incerteza existente e a viabilidade da investigação. Conversas investigativas respondem a dúvidas que dependem de experiências e perspectivas compartilhadas pelos interlocutores. No caso didático, documentos do programa informam como a formação foi organizada; conversas com os alunos ajudam a compreender em quais situações pretendem aplicar o aprendizado.

Produzir, interpretar e reunir o aprendizado

A execução da pesquisa combina acesso às fontes, produção de dados e análise. O registro preserva a origem, o contexto e a forma de obtenção das informações. A comparação entre situações e perspectivas permite reconhecer recorrências, diferenças e novas questões. A análise transforma esse material em entendimentos relacionados ao desafio.

A síntese reúne os achados que sustentam uma decisão. Temas, mapas ou princípios podem relacionar evidências, interpretações e hipóteses e tornar visíveis as oportunidades de atuação. Sua priorização considera a contribuição para a transformação pretendida, as condições de realização e as incertezas que ainda influenciam o projeto.

O resultado da investigação orienta a exploração de soluções e os próximos testes. Conforme o projeto incorpora conhecimentos, novas dúvidas atualizam a CSD, o plano de pesquisa e as prioridades. Quando a investigação depende de experiências e perspectivas, a nota Conversas investigativas desenvolve a preparação, a condução e o uso do material produzido.

Referências

CAMILLO, Diogo Braga. Métodos e técnicas para estruturação de pesquisa para projeto em design de serviço. Tese (Doutorado em Design), Universidade do Estado do Rio de Janeiro, 2025.

AGEE, Jane. Developing qualitative research questions: a reflective process. International Journal of Qualitative Studies in Education, v. 22, n. 4, p. 431–447, 2009. Artigo.

BOWEN, Glenn A. Document analysis as a qualitative research method. Qualitative Research Journal, v. 9, n. 2, p. 27–40, 2009. Artigo.

CRESWELL, John W. Research Design: Qualitative, Quantitative, and Mixed Methods Approaches. 3. ed. Thousand Oaks: Sage, 2009.

IDEO.org. Frame Your Design Challenge.

IDEO.org. How Might We.

KALEY, Anna. CSD Matrix: Framework and Template for Shared Understanding. Nielsen Norman Group, 2023.

PATTON, Michael Quinn. Qualitative Research & Evaluation Methods. 3. ed. Thousand Oaks: Sage, 2002.

PENIN, Lara. An Introduction to Service Design: Designing the Invisible. London: Bloomsbury Visual Arts, 2018.

POLAINE, Andrew; LØVLIE, Lavrans; REASON, Ben. Service Design: From Insight to Implementation. New York: Rosenfeld Media, 2013.

VARGO, Stephen L.; LUSCH, Robert F. Service-Dominant Logic: Foundations.